I. Cinco minutos de nada
Durante cinco minutos não houve partida. Houve dois times fazendo exatamente a mesma coisa em metades opostas do mapa, e o ouro acompanhou a simetria com uma precisão quase constrangedora: 8.300 contra 8.200 aos cinco minutos, cem moedas de diferença que não queriam dizer nada. Ninguém tinha morrido. Ninguém tinha arriscado. Ninguém tinha, a rigor, feito nada digno de nota.
É o tipo de abertura que costuma envelhecer mal. Ou o jogo estica e se decide no cansaço, ou a primeira pessoa a perder a paciência define o resto da noite. Naquela madrugada aconteceram as duas coisas, nessa ordem, e ainda sobrou tempo.
II. O reinado do Nocturne
Quem perdeu a paciência foi Cabeça. Aos seis minutos o Nocturne apareceu na rota inferior, encontrou a Xayah de Gat fora de posição e abriu o placar da noite — primeiro sangue, e a primeira vez em que o ouro pendeu para os Dickheads.
O que veio depois não foi espetacular; foi metódico, que costuma ser pior de enfrentar. Aos sete minutos, o dragão químico. Aos nove, duas das três larvas — Marcola salvou uma e foi tudo o que os Senhores do Engenho tiraram do primeiro conflito subterrâneo da madrugada. Aos treze, o dragão do ar. Aos dezesseis, o arauto. Quatro objetivos em nove minutos, um atrás do outro, sem pressa, sem oposição séria e quase sem barulho.
Aos dez minutos a conta chegou ao pior número que os Senhores veriam na partida: dois mil de ouro atrás. Não é um buraco fundo para os padrões de um jogo de quarenta minutos, mas é fundo o bastante para mudar a postura de quem está dentro dele. E por quinze minutos os Senhores do Engenho jogaram como quem está atrás: esperando, trocando torre por torre, evitando o encontro que poderia resolver.
Houve uma exceção, e ela merece ser registrada porque se repetiria. Aos dezesseis minutos, com o time ainda mil e oitocentos atrás, Gat foi até a torre externa da rota inferior dos Dickheads e derrubou. Não era o movimento óbvio para quem estava perdendo. Era, como se veria adiante, o único movimento que ele faria a noite inteira, ganhando ou perdendo.
III. O minuto vinte e um
A virada não veio de um erro do adversário; veio de um encontro. Aos vinte e um minutos os dois times se acharam no meio do mapa e os Senhores fizeram três abates sem devolver nenhum — Marcola tirou Cabeça e Gusz, Delvio pegou JP. Enquanto os três esperavam para voltar, Gat foi à torre externa do meio e derrubou.
O ouro virou naquele minuto por cento e sessenta e quatro, um número quase cômico de tão pequeno. No minuto seguinte virou de verdade: dois mil quinhentos e noventa e quatro. Uma luta e uma torre tinham apagado quinze minutos de controle de mapa.
Aos vinte e quatro, Gat matou o barão. Aos vinte e seis, derrubou a torre interna do meio enquanto Schork derrubava a de baixo. Aos vinte e sete minutos os Senhores do Engenho estavam três mil oitocentos e quarenta e cinco à frente, e a partida tinha todo o aspecto de estar resolvida.
Não estava.
IV. A hora de devolver
Aos trinta minutos Cabeça matou Decker e Gat em sequência, e o Nocturne que havia sumido por dez minutos voltou ao jogo no pior momento possível. Aos trinta e um, numa confusão de dois contra dois em que nenhum dos lados saiu por cima, JP matou o barão para os Dickheads. A vantagem dos Senhores, que era de quase quatro mil, virou mil e cinquenta.
Aos trinta e dois minutos: duzentos e doze. Em cinco minutos os Senhores do Engenho tinham devolvido tudo o que levaram onze minutos para construir.
O que se seguiu foram seis minutos em que nenhum dos dois times conseguiu segurar o que ganhava. Aos trinta e três os Senhores fizeram três a um, com Gat tirando Bruno e Cabeça — mas JP derrubou a torre externa do meio do outro lado do mapa, e o saldo do minuto foi quinhentos e trinta e oito. Aos trinta e quatro, mais dois a um e o quarto dragão, desta vez para Gat.
Aos trinta e seis veio o pior momento da noite. Sete abates numa luta só, cinco deles para os Dickheads: Bruno tirou Marcola e Schork do mapa, e enquanto os dois esperavam, a torre interna superior dos Senhores caiu — para as tropas, que é a maneira mais humilhante de perder uma torre.
Aos trinta e sete minutos o placar de ouro dizia 69.800 contra 70.700. Os Dickheads estavam na frente pela segunda vez na partida, e desta vez com o jogo maduro. Faltavam dois minutos e meio, e ninguém no Hadouken tinha como saber disso.
V. Os dois minutos finais
Aos trinta e oito, Gat matou Cabeça. Foi um abate só, e foi o abate que liberou o rio: com o caçador adversário no chão, os Senhores mataram o terceiro barão da partida — o segundo de Gat — e, em vez de recuar para esperar o efeito, foram direto na torre interna de cima e derrubaram.
O ouro mudou de lado pela última vez naquela noite: quinhentos e oitenta e cinco.
Aos trinta e nove minutos a partida acabou de todas as maneiras ao mesmo tempo. Marcola derrubou a torre da base superior, Schork abriu o inibidor, e enquanto os Dickheads montavam uma última defesa Gat matou Cabeça outra vez, matou Gusz e matou Morete. Quatro a três na última luta, e as duas torres do nexo caíram — as duas para ele.
Trinta e nove minutos e trinta segundos. 79.400 contra 75.300.
VI. O homem da partida
Gat terminou com 7/5/8 de Xayah, o que não impressiona ninguém lido em voz alta. O que impressiona está fora do KDA.
Foram 403 minions, cinquenta a mais que o segundo colocado, num jogo em que ele nunca deixou de lutar. Foram 21.102 de ouro, três mil e seiscentos à frente do jogador mais rico do time adversário. E foram seis das nove torres dos Senhores do Engenho, contra duas do time inteiro do outro lado.
O número que de fato resume a partida, porém, é outro: 61.089 de dano a objetivos. O segundo maior da noite foi o de Cabeça, 40.242 — e Cabeça é caçador, função cujo trabalho é exatamente esse. Gat é atirador.
Enquanto o jogo trocava de dono cinco vezes, havia uma pessoa fazendo a mesma coisa do minuto dezesseis ao minuto trinta e nove, com o time na frente ou atrás, e foi essa teimosia que apareceu no placar final depois que tudo o mais se anulou.